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O elo Trump-Bolsonaro que chega às terras raras do extremo sul da Bahia

Mineradora beneficiada pelo governo Trump controla 19 áreas entre Prado, Alcobaça e Caravelas; empresa parceira recebeu investimentos do fundo de Donald Trump Jr., enquanto STF investiga suspeitas de conexões entre interesses estrangeiros e a campanha de Flávio Bolsonaro.

06/11/2026 21:45

O que uma empresa mineradora norte-americana, Donald Trump, seu filho mais velho, a rede de empresários da extrema direita dos Estados Unidos e a família Bolsonaro têm em comum com o litoral do extremo sul da Bahia? A resposta está debaixo da terra. Em Prado, Alcobaça e Caravelas, a Energy Fuels controla 19 processos minerários de um projeto voltado à exploração de minerais estratégicos, incluindo terras raras e monazita. A empresa integra uma cadeia comercial que chega a uma fabricante de ímãs financiada por um fundo de Donald Trump Jr. e beneficiada por recursos do governo norte-americano. A conexão política ganhou outra dimensão após o STF determinar investigação sobre possíveis interesses econômicos estrangeiros relacionados à campanha de Flávio Bolsonaro.

O chamado Projeto Bahia é controlado pela Energy Fuels, mineradora norte-americana que adquiriu, em fevereiro de 2023, 17 títulos minerários na região por US$ 27,5 milhões. A operação abrangia aproximadamente 15.089 hectares. Posteriormente, a companhia acrescentou outros dois processos, chegando a 19 áreas. O interesse está concentrado nas areias minerais pesadas, especialmente na monazita, mineral que contém elementos de terras raras, além de urânio e tório.

Não se trata de uma matéria-prima qualquer. Os elementos extraídos desses minerais são utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, equipamentos eletrônicos, drones, satélites e sistemas militares. A disputa por esses recursos é parte da estratégia norte-americana para reduzir a dependência da China, que domina etapas fundamentais da cadeia mundial de processamento de terras raras.

O extremo sul da Bahia, portanto, passou a integrar uma cadeia de abastecimento que interessa diretamente à política industrial e militar dos Estados Unidos. Donald Trump Jr. está no circuito empresarial dos minerais estratégicos Uma das conexões mais relevantes aparece na estrutura de investimentos da 1789 Capital, fundo de capital de risco do qual Donald Trump Jr. é sócio.

Em agosto de 2025, a empresa investiu na Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímãs de terras raras. Poucos dias depois, em 26 de agosto, a Vulcan anunciou um acordo comercial com a Energy Fuels para desenvolver uma cadeia de fornecimento de materiais utilizados na fabricação desses componentes.

A relação é especialmente importante para a Bahia: a Energy Fuels controla os direitos minerários do Projeto Bahia, enquanto a Vulcan integra o circuito industrial de transformação de matérias-primas em produtos de alto valor agregado. Em outras palavras, existe uma conexão comercial documentada entre a empresa que controla áreas minerais no litoral baiano e uma fabricante financiada pelo fundo do qual o filho do presidente dos Estados Unidos é sócio.

A relação entre a Vulcan Elements e o governo norte-americano amplia a dimensão política e econômica da operação. Em novembro de 2025, o governo Trump anunciou um compromisso de empréstimo de US$ 620 milhões para a fabricante de ímãs. O pacote também incluiu US$ 50 milhões em incentivos do Departamento de Comércio e uma participação acionária governamental de US$ 50 milhões. Uma investigação da ProPublica, publicada em maio de 2026, revelou que a operação teve participação de Peter Navarro, assessor da Casa Branca e aliado de Trump Jr. Segundo documentos e entrevistas examinados pelo veículo, Navarro solicitou que o Pentágono avaliasse o financiamento da empresa.

O processo teria avançado em ritmo incomum. Entre as empresas que disputavam recursos, a Vulcan teria sido a única cuja solicitação foi iniciada por um assessor de alto escalão da Casa Branca. Trump Jr. afirmou, por meio de seu representante, que não participou das tratativas do empréstimo e não conversou com Navarro sobre o negócio. A 1789 Capital também negou ter atuado para conseguir o financiamento.

A operação levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, uma vez que o fundo do qual o filho do presidente é sócio havia investido na empresa beneficiada pelo financiamento público. A conexão com a Bahia está na cadeia comercial: a Vulcan tem acordo com a Energy Fuels, justamente a companhia que controla o Projeto Bahia.

A relação da Energy Fuels com o Brasil também antecede a aquisição das áreas baianas. Em outubro de 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, o então CEO da companhia, Mark Stephen Chalmers, reuniu-se com Lilia Mascarenhas Sant Agostino, então secretária nacional do Ministério de Minas e Energia. A pauta incluía potenciais projetos de investimento no setor mineral brasileiro. Pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 2023, a Energy Fuels oficializou sua entrada no extremo sul da Bahia com a aquisição dos 17 títulos minerários.

O registro dessa reunião não comprova participação pessoal de Jair Bolsonaro na negociação, nem demonstra que a aquisição tenha sido resultado de uma articulação política do ex-presidente. Mas estabelece que a mineradora já mantinha interlocução com a estrutura do governo federal durante sua gestão. A trajetória também mostra como a expansão dos interesses internacionais sobre os minerais brasileiros atravessa diferentes governos e permanece relevante independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto.

A conexão política mais delicada envolve a Rockbridge Network, rede de empresários e investidores conservadores dos Estados Unidos associada à expansão de interesses políticos da direita norte-americana. A rede foi criada por empresários entre os quais está Chris Buskirk, também ligado à formação da 1789 Capital. Donald Trump Jr. integra o fundo como sócio. Em 6 de novembro de 2026, a Rockbridge iniciou uma operação no Brasil sob suspeita de colaborar com a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

O cenário ganhou dimensão judicial em 27 de outubro de 2026, quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a Polícia Federal investigasse possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro. A decisão incluiu a apuração da origem, circulação e destinação de recursos estrangeiros, além de possíveis manipulações de algoritmos para favorecer ou prejudicar candidaturas. O ponto que merece atenção é a coincidência entre os interesses empresariais de redes ligadas ao trumpismo, a disputa por minerais estratégicos brasileiros e as articulações políticas em torno da família Bolsonaro.

Enquanto as conexões empresariais e políticas atravessam Washington e Brasília, os possíveis impactos do empreendimento recaem sobre o litoral baiano. 12 dos 19 processos minerários da Energy Fuels estão inseridos na Área de Proteção Ambiental Ponta da Baleia-Abrolhos. A área reúne ecossistemas costeiros de grande importância ambiental e econômica, com recifes, manguezais, biodiversidade marinha e comunidades que dependem diretamente da pesca e de atividades tradicionais.

O mundo já descobriu o que existe debaixo do solo do extremo sul da Bahia. Empresas norte-americanas estão posicionadas, investidores internacionais acompanham o setor e o governo dos Estados Unidos financia a construção de uma cadeia industrial que depende desses minerais. Enquanto isso, comunidades locais ainda discutem os riscos de um empreendimento que pode alterar profundamente o território onde vivem.

Por Redação Notícia10

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