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Brasil - 12 horas ago

900 mulheres são agredidas por dia e sistema de saúde vira última barreira antes do feminicídio

Dados do SINAN revelam que 53% das vítimas são reincidentes e apontam falhas na rede de proteção.

O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou, ao longo do último ano, uma média de 900 atendimentos diários a meninas e mulheres vítimas de violência em unidades de saúde brasileiras, totalizando 330 mil notificações. O volume de registros evidencia uma crise de saúde pública estrutural, em que a rede hospitalar atua como sentinela de conflitos domésticos que muitas vezes não chegam ao sistema de segurança pública. Entre 2015 e 2025, o país somou 2,3 milhões de casos, revelando que a violência interpessoal é um fenômeno sequencial e com perfil demográfico e social persistente.

A análise dos dados da última década expõe a gravidade da violência contínua: 53% das mulheres atendidas no sistema de saúde já haviam buscado assistência médica anteriormente pelo mesmo motivo. Essa reincidência funciona como um indicador de risco para o feminicídio. Segundo a professora Deborah Carvalho Malta, da UFMG e doutora em saúde coletiva pela Abrasco, a violência por parceiro íntimo não é um evento isolado, mas uma escalada que frequentemente começa com agressões psicológicas e pode culminar na morte da vítima.

Apesar dos números elevados, a realidade pode ser ainda mais severa devido à subnotificação. De acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Senado, estima-se que apenas 34% das vítimas buscam assistência em unidades de saúde. Diferente das delegacias, onde a denúncia é o foco, o atendimento médico prioriza o acolhimento, permitindo que profissionais identifiquem danos que nem sempre são físicos, como traumas psicológicos e patrimoniais.

Os registros do Sinan convergem para um perfil específico que reflete as desigualdades estruturais do Brasil. A maioria das vítimas é composta por mulheres negras (pretas e pardas), com idade entre 20 e 49 anos e baixa escolaridade, tendo interrompido os estudos antes da conclusão do ensino médio. O ambiente doméstico permanece como o local de maior vulnerabilidade, sendo o parceiro ou ex-parceiro íntimo o principal agressor.

Este cenário é corroborado por um estudo publicado na revista The Lancet em 2025, que posiciona a violência por parceiro íntimo como o terceiro maior fator de risco para morte prematura e invalidez de mulheres na faixa de 15 a 49 anos no Brasil. A violência sexual na infância ocupa a segunda posição neste ranking de letalidade e perda de qualidade de vida.

Embora o Ministério da Saúde reconheça a violência como problema de saúde pública há 25 anos, persistem lacunas operacionais. Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, médica da Febrasgo, ressalta que apenas cerca de 40 hospitais públicos no país estão devidamente cadastrados para realizar o protocolo completo de atendimento à violência sexual, incluindo profilaxias e interrupção de gestação nos casos previstos em lei.

“A gente não notifica para a rede policial porque, se o profissional de saúde faz isso sem a concordância da mulher, ele pode colocá-la em risco”, explica Deborah Carvalho Malta.

O protocolo atual visa o empoderamento da vítima. Ao identificar a violência, o profissional aciona uma cadeia que inclui assistência social e orientação sobre medidas protetivas, sem a obrigatoriedade de acionamento imediato da polícia para mulheres adultas, visando preservar a segurança da paciente frente ao agressor.

Especialistas defendem que o enfrentamento ao problema exige mais do que o tratamento dos ferimentos físicos. Para a doutora Malta, a solução depende de uma abordagem intersetorial que combata a gênese cultural e estrutural da violência. Isso inclui políticas voltadas para a redução da desigualdade social, o aumento da escolaridade feminina e investimentos robustos na proteção à infância, visando romper o ciclo que transforma traumas precoces em vulnerabilidades permanentes.
Por Redação Notícia10

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