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Mulher - 3 horas ago

Futebol e sangue: Brasil registra 25% mais agressões a mulheres em dias de jogos

Aumento nas agressões domésticas durante partidas revela como o esporte é usado para mascarar ciclos de abuso e controle.

Para milhares de brasileiras, o calendário do futebol não é um cronograma de lazer, mas um sistema de alerta. Enquanto estádios celebram ou lamentam resultados, o ambiente doméstico converte a tensão do campo em violência real. Em 2025, o Brasil registrou 6.904 feminicídios (entre casos consumados e tentados), mas é nos dias de grandes transmissões que o risco atinge seu ápice, com um salto superior a 25% nas notificações de agressão.

A correlação entre o esporte e a violência doméstica não é causal — o futebol não “cria” um agressor —, mas funciona como um catalisador de comportamentos pré-existentes. Especialistas apontam que a estrutura do jogo oferece o cenário ideal para o extravasamento de impulsos violentos sob três pilares principais:

1. Álcool como Desinibidor: O consumo em massa antes, durante e após as partidas reduz o controle de impulsos. O álcool atua como uma “autorização social” para a agressividade.
2. Masculinidade e Controle: O futebol é frequentemente lido como uma extensão da identidade e do poder. A frustração com a derrota ou a euforia da vitória são transpostas para o domínio doméstico como forma de reafirmar controle sobre a parceira.
3. Exposição Prolongada: Eventos esportivos mantêm o agressor em casa por períodos maiores, sob alta carga emocional, reduzindo as janelas de segurança da vítima.

O fenômeno foi detalhadamente mapeado pela Lancaster University, no Reino Unido. Ao analisar dados policiais durante a Copa do Mundo, os pesquisadores identificaram um padrão estatístico rigoroso: o aumento da violência ocorre independentemente do placar, mas a intensidade varia.
Cenário de Jogo Aumento nos Registros de Violência

No Brasil, a dinâmica se repete. Com 81% das violências ocorrendo dentro de casa, o país enfrenta o desafio de que o feminicídio segue em alta mesmo quando outros indicadores de criminalidade, como homicídios dolosos, apresentam recuo. Apenas no primeiro semestre de 2025, a média foi de quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero.

A ONU estima que 137 mulheres são mortas diariamente por parceiros ou familiares ao redor do mundo. O dado desmistifica a ideia de que o perigo para a mulher está “na rua”.

No contexto brasileiro, a rede de proteção esbarra em gargalos de execução. Embora o país possua a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, especialistas alertam que a efetividade das medidas protetivas de urgência depende de uma capilaridade que as Delegacias Especializadas (DEAMs) ainda lutam para atingir em municípios do interior.

A influência cultural do futebol, que hoje amplifica o problema, é também a ferramenta mais poderosa para combatê-lo. A estrutura do esporte — clubes, federações e grandes redes de transmissão — detém uma audiência que as campanhas governamentais tradicionais dificilmente alcançam sozinhas.

O enfrentamento dessa estrutura social persistente exige que o “apito final” no campo seja o início de uma rede de proteção, e não o começo de um risco invisível entre quatro paredes.
Por Redação Notícia10

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