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Economia - 4 horas ago

BRICS inicia testes-piloto de plataformas de pagamento próprias para reduzir dependência do dólar

Projetos BRICS Bridge e BRICS Clear buscam alternativa ao SWIFT; especialistas apontam riscos de sanções e atritos internos como obstáculos

Os países do BRICS iniciaram testes-piloto bilaterais de novas plataformas de pagamento que podem reduzir a dependência da infraestrutura financeira controlada pelos Estados Unidos. A informação foi confirmada ao jornal Izvestia pelo vice-ministro das Finanças da Rússia, Ivan Chebeskov, que coordena as iniciativas durante a presidência russa do bloco em 2024.

As plataformas BRICS Bridge e BRICS Clear são as principais apostas do grupo. A primeira funcionaria como um sistema de liquidação alternativo ao SWIFT, permitindo pagamentos internacionais sem passar pela banca ocidental. A segunda criaria uma infraestrutura própria para circulação de títulos entre os países do bloco, nos moldes dos sistemas existentes na Europa e nos Estados Unidos, hoje de acesso restrito à Rússia e a outras nações sob sanções.

“Embora ainda não tenham sido criadas plataformas específicas, já existem resultados iniciais, especificamente, alguns projetos-piloto bilaterais dessas iniciativas”, afirmou Chebeskov. Ele acrescentou que há uma “discussão mais ativa sobre a necessidade geral de criar infraestrutura alternativa”.

O avanço concreto ocorre num contexto de pressão crescente de Washington. Em 2024, o então presidente Donald Trump ameaçou os países do BRICS com tarifas de 100% caso tentassem substituir o dólar. Hoje, a pressão se manifesta em tarifas comerciais direcionadas a Índia e China, além da exigência de ampliação das compras de produtos americanos.

Paradoxalmente, especialistas avaliam que essa estratégia de coerção acelera o movimento que pretende conter. “A ameaça de sanções ocidentais é um fator importante”, reconhece Alisa Kazelko, membro da Associação Russa de Controle de Exportações e especialista do Clube Valdai. “Se essas plataformas estiverem operacionais, elas eliminarão essa vulnerabilidade e funcionarão como uma apólice de seguro de longo prazo para todo o Sul Global.”

Os números já mostram uma mudança em curso. Em março de 2025, o chanceler russo Sergey Lavrov confirmou que 67% do comércio bilateral entre os países do BRICS é liquidado em moedas nacionais. A participação do dólar caiu para 33% , uma reversão significativa em relação ao padrão histórico.

Mas o caminho está longe de ser linear. Kazelko projeta um prazo realista para lançamento parcial entre 2027 e 2028, condicionado à vontade política dos principais participantes. Ela explica a lógica estratégica: hoje, transações entre Índia e Brasil ou entre Rússia e África do Sul ainda passam pela infraestrutura do dólar, criando riscos de sanções para toda a cadeia.

As tensões internas do bloco representam outro obstáculo. A Índia enxerga as iniciativas financeiras do BRICS com desconfiança, tratando-as como “projeto chinês em embalagem internacional”, segundo a especialista. O país avança com extrema cautela. O Brasil, por sua vez, mantém seu sistema financeiro profundamente integrado à infraestrutura ocidental, o que gera contradições internas entre o discurso favorável à desdolarização e a realidade de seus fluxos comerciais.

Younis Haji Al Khouri, vice-ministro das Finanças dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que o grupo também discute o aumento do investimento em infraestrutura conjunta e a possibilidade de envolver o setor privado nos novos mecanismos. Setores como saúde, educação e infraestrutura estratégica estão na mira das parcerias público-privadas.

Chebeskov reconheceu as limitações políticas do processo. “Muitos parceiros ainda hesitam em discutir publicamente soluções de plataforma importantes devido a preocupações com as consequências geopolíticas”, disse. Nos bastidores, porém, esses mesmos países estão dispostos a trabalhar bilateralmente e a conduzir testes-piloto.

O cenário mais realista para a próxima década, de acordo com Kazelko, é a formação de um sistema monetário paralelo dentro do BRICS, mantendo o dólar como referência nas transações externas. O ritmo dessa transição não será definido pelas cúpulas diplomáticas, mas pela dinâmica das sanções americanas, o principal incentivo estrutural para a desdolarização.
Por Redação Notícia10

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