
Mel, artesanato e café: Jequitinhonha reverte estigma e cresce com produção coletiva
O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, carrega o peso de ter historicamente concentrado cidades com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Mas o estigma de “pobre e atrasado” começa a ser confrontado por números do mercado. O produtor de café Cláudio Nakamura, de 60 anos, realizou neste ano a maior venda da história do 4º Prêmio Chapa de Minas de Cafés Especiais: três sacas de 60kg por R$ 8,4 mil cada, totalizando mais de R$ 25 mil. Um fato isolado? Não para a economia local, onde cada avanço tem impacto direto e acelerado na vida das famílias.
“Em distritos pequenos assim, reflete muito rápido”, analisa a professora Tatiana Nunes Amaral, do Instituto de Ciência e Tecnologia da UFVJM. Segundo a especialista, o efeito imediato é visto no crescimento do comércio, maior fixação das famílias no território e um aumento da dignidade da população como um todo. No centro desta mudança está a organização coletiva. Associações e cooperativas passaram a ser a chave para levar a produção – seja café, mel ou artesanato – para além dos limites municipais.
Julian Silva, analista do Sebrae que atua na região, explica a necessidade: “Atendendo de forma individual, sair para o macro e ter impacto é muito difícil. Para que a gente consiga ter escala e um resultado em nível regional e global, é essencial que a gente tenha grupos organizados”. O Sebrae oferece apoio técnico, mas reforça que a iniciativa precisa partir de quem vive o dia a dia. Rogério Nunes Fernandes, gerente regional, é enfático: “Nós não temos como saber do que o produtor precisa. Apenas ele mesmo pode dizer”.
A Cooperativa dos Apicultores do Vale do Jequitinhonha (Coopivaje) é um exemplo prático. Após se organizar e fechar parcerias, a quantia de mel comercializada por ano saltou de 150 kg para 650 kg, mirando 1,3 mil kg em 2026. “No início, a gente apanhou bastante, porque a gente tentava buscar o mercado de uma maneira desorganizada”, conta o coordenador César Oliveira.
A professora Tatiana Nunes Amaral complementa: o acesso individualizado a mercados representa uma perda de poder de negociação e, consequentemente, de preço. “Em qualquer cadeia, se você vai comprar uma unidade ou 10 mil, o valor muda”, diz, justificando o sucesso das associações como a de Artesãs Coqueiro Campo, em Turmalina, que passou a receber grandes encomendas.
O sucesso da produção local tem atraído um novo fluxo: o turismo de compra. O Prêmio Chapa de Minas, por exemplo, já leva anualmente compradores de café a Capelinha (MG), interessados na qualidade dos grãos. O empresário Bruno Wariss, que viajou de Belém (PA) em 2025 para participar do leilão, resume: “Eu vim de longe para chegar aqui. São dois aviões, um ônibus, mas vale a pena porque tem excelentes cafés”.
Apesar do otimismo, a professora Tatiana Nunes Amaral vê um potencial inexplorado. Ela aconselha a estruturação de um turismo de experiência, que inclua visitas a fazendas, eventos gastronômicos e a ampliação de festas religiosas. A estratégia não só complementaria a renda como “movimenta de forma absurda a economia”.
O produtor Cláudio Nakamura concorda que o processo de superação é contínuo, mas o saldo é positivo: “a mudança não é muito rápida, mas gradativamente a região tem melhorado bastante”. A transformação do Vale do Jequitinhonha passa, assim, por substituir o histórico de IDH baixo pela capacidade de criar e comercializar produtos de alto valor agregado, organizando-se para ganhar escala no mercado.
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