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Economia - 3 horas ago

cacauicultura da Bahia e Pará enfrentam a hegemonia africana com regulação e valor agregado ao produto

Iniciativas de produção de cacau fino e nova regulamentação industrial tentam reverter desequilíbrio causado por importações e queda na demanda por amêndoas de alta qualidade.

Nesta quinta-feira (16/04), produtores de cacau da Bahia e do Pará, principais polos do setor no Brasil, enfrentam um cenário de pressão econômica acentuada pela importação de amêndoas e pela hegemonia de países africanos no mercado global. Apesar da safra expressiva na Bahia, que registrou 137.028 toneladas em 2024, a entrada de matéria-prima estrangeira mais barata tem reduzido a competitividade nacional. O setor aposta agora na transição para o “cacau fino” e em mudanças na legislação de alimentos para assegurar a sustentabilidade econômica da cadeia produtiva e o escoamento das colheitas locais.

O Brasil ocupa atualmente a sexta posição no ranking global de produção de cacau, mas encontra-se em uma posição vulnerável frente à Costa do Marfim e Gana. Estes dois países detêm cerca de 70% da produção mundial, segundo dados da Bolsa de Nova York, e conseguem ofertar amêndoas com custos operacionais inferiores aos brasileiros, abastecendo a indústria nacional e pressionando os preços internos.

A valorização recente da arroba, que chegou a superar R$ 1 mil no mercado interno, foi um fenômeno circunstancial impulsionado por crises climáticas em outras regiões produtoras. Com a normalização da produção global, os preços tendem a se estabilizar em patamares mais baixos, expondo os gargalos estruturais das fazendas brasileiras que ainda operam em modelos de baixa agregação de valor.

Um dos entraves críticos identificados pelos produtores é a redução gradual do teor de cacau em produtos industrializados, o que desestimula a busca por amêndoas de qualidade superior. Como resposta, o setor aguarda a implementação dos parâmetros do Projeto de Lei 1769/2019, aprovado no Congresso Nacional.

A nova regra estabelece exigências mínimas para a composição do chocolate vendido no país:
• 35% de sólidos totais de cacau no produto final;
• 25% de cacau no chocolate ao leite;
• 14% de sólidos totais de leite.
A expectativa é que a regulamentação force a indústria a elevar a demanda por matéria-prima nacional qualificada, beneficiando diretamente quem investe em processos de pós-colheita mais rigorosos.

Para enfrentar a commodity africana, o Sebrae e a Ecoagro iniciaram o circuito de oficinas “Do fruto ao aroma: produção de cacau fino”. O foco é qualificar o manejo em municípios baianos como Presidente Tancredo Neves, Gandu e Valença. “O projeto vai além da capacitação técnica, configurando-se como uma estratégia estruturante para reposicionamento da cacauicultura regional”, afirma Luanildo Silva, analista do Sebrae.

O diferencial estratégico reside no sistema Cabruca, modelo agroflorestal onde o cacau cresce sob a sombra da Mata Atlântica. Segundo a Ceplac, este sistema ocupa 60% da área cultivada na Bahia. Além da conservação ambiental, o modelo oferece um ativo de “sustentabilidade” que o mercado internacional premium remunera com preços superiores aos da Bolsa de Nova York.

Thiago Fernandes, diretor do Consórcio Cabruca de exportação, reforça que o cenário de pressão já era previsível e demanda “adaptação estratégica e inovação produtiva” para que o produtor não dependa apenas das oscilações de preço da amêndoa comum.

As capacitações técnicas, que abrangem desde a fermentação até a análise sensorial, seguirão com encontros programados até junho de 2026. O objetivo é criar uma base produtiva resiliente no Baixo Sul e Vale do Jiquiriçá, integrando o pequeno produtor a mercados de exportação de chocolate fino, menos suscetíveis à volatilidade das commodities globais.
Por Redação Notícia10

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