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Política - 11 de maio de 2026

Brasil: mentiram pra você esse tempo todo, a corrupção no país tem um lado ideológico, mas, não é o que te disseram

Enquanto discurso conservador tenta associar corrupção a esquerda, números de operações policiais e distribuição real do poder mostram cenário totalmente contrário.

Durante anos, o Brasil assistiu à construção de uma narrativa poderosa: a corrupção teria lado político, cor ideológica e endereço partidário. Na televisão, nos palanques, nas redes sociais e nas operações transformadas em espetáculo, consolidou-se a ideia de que a esquerda — especialmente o Partido dos Trabalhadores — seria a origem estrutural da corrupção nacional. A direita, em contraste, vendeu-se como guardiã da moralidade pública.

Os números, porém, contam uma história muito menos confortável.
Hoje, quem domina o poder local brasileiro não é a esquerda. São partidos de direita, extrema direita e centrão. Juntos, PSD, MDB, PP, União Brasil, PL e Republicanos controlam 4.331 das 5.569 prefeituras do país — quase 80% dos municípios brasileiros. O PT, transformado durante décadas em sinônimo absoluto de corrupção no debate público, administra 252 cidades.

A discrepância escancara uma contradição raramente debatida fora das bolhas políticas: se a máquina pública brasileira está majoritariamente nas mãos da direita, por que a corrupção continua sendo tratada como um “problema ideológico da esquerda”?

A resposta passa menos pelos fatos e mais pela forma como o imaginário político nacional foi moldado.
Nos últimos anos, setores conservadores construíram uma operação narrativa eficiente: transformar corrupção em arma eleitoral seletiva. Quando escândalos atingiam governos de esquerda, falava-se em “projeto de poder corrupto”, “organização criminosa” e “ameaça institucional”. Quando operações policiais passaram a alcançar prefeitos, deputados e governadores da direita, o discurso mudou de tom. Viraram “casos isolados”, “falhas individuais” ou “perseguição política”.

Em Santa Catarina, um dos estados mais identificados com o conservadorismo brasileiro e com o discurso bolsonarista anticorrupção, a realidade explodiu sobre a retórica.
Desde agosto de 2020, 29 prefeitos catarinenses foram presos. Quase 10% dos 295 municípios do estado tiveram gestores detidos em operações policiais. A principal delas, a Operação Mensageiro, revelou um esquema sistêmico de fraudes em contratos milionários de coleta de lixo. Dezessete prefeitos foram presos.

O detalhe politicamente explosivo está na filiação dos envolvidos: grande parte orbitava partidos de centro-direita, direita ou alinhados ao bolsonarismo — justamente o campo político que mais se apresentou ao país como representante da “nova política” e da “faxina ética”.
O caso desmontou uma das principais farsas do debate público brasileiro: a ideia de que conservadorismo e moralidade administrativa caminham automaticamente juntos.

No Rio de Janeiro, o roteiro ficou ainda mais brutal.
O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, do União Brasil, acabou preso após investigações que aprofundaram a crise política fluminense. Pouco antes, o Tribunal Superior Eleitoral havia cassado seu mandato. A decisão também tornou inelegível o ex-governador Cláudio Castro, do PL, por abuso de poder econômico e político nas eleições de 2022.

Ao mesmo tempo, o deputado estadual TH Joias, do MDB, passou a ser investigado sob suspeitas de relações indiretas com interesses ligados ao Comando Vermelho.

Os episódios atingem em cheio um dos pilares centrais do moralismo político brasileiro recente: a ideia de que a corrupção estaria concentrada em um único espectro ideológico.

Os dados eleitorais tornam essa contradição ainda mais difícil de esconder.
Dos 60.311 vereadores eleitos no Brasil, cerca de 39.732 pertencem a partidos de direita, extrema direita e centrão — aproximadamente 70% das câmaras municipais do país. MDB lidera com 8.113 vereadores. PP tem 6.953. PSD, 6.624. União Brasil soma 5.490. O PL aparece com 4.961 cadeiras.

Na prática, isso significa que o campo político que mais vocaliza o discurso anticorrupção também controla a maior parte das estruturas responsáveis por contratos públicos, licitações, fiscalização municipal e execução de orçamento.

A realidade produz uma pergunta incômoda: se corrupção fosse um fenômeno “natural da esquerda”, como sustentar o crescimento de escândalos justamente nos setores que concentram hoje o maior volume de poder institucional do país?

O problema é que a corrupção brasileira nunca funcionou como fenômeno ideológico. Ela acompanha orçamento, influência política, fragilidade de fiscalização e concentração de poder. A história recente mostra que partidos mudam de discurso com facilidade; já as estruturas de clientelismo, favorecimento e captura da máquina pública sobrevivem a quase todas as eleições.

O que se consolidou no Brasil não foi exatamente uma cruzada ética. Foi uma seletividade moral profundamente eficiente.
Criou-se um ambiente em que parte do eleitorado reage à corrupção menos pelos fatos e mais pela identidade política de quem é acusado. A indignação tornou-se segmentada. Escândalos são amplificados ou relativizados conforme o lado envolvido.

Enquanto isso, a corrupção segue atravessando governos, parlamentos, partidos e administrações municipais de diferentes correntes ideológicas — protegida, muitas vezes, pelo mesmo moralismo que prometia destruí-la.

Talvez a maior fraude política brasileira das últimas décadas não tenha sido apenas a corrupção em si. Talvez tenha sido convencer milhões de pessoas de que ela tinha um único lado.

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